domingo, 26 de janeiro de 2014

Crônica: Em defesa da possibilidade da tinta acrílica ser o que eu quiser!

 Toyart do gato Nicolau ( © 2013 Thales Estefani. Todos os direitos reservados, via Behance.)

Num sábado qualquer de dezembro eu precisava de tinta acrílica.
Um amigo oculto self-made estava marcado para alguns dias após e tive a ideia de fazer um toyart do bicho de estimação do meu amigo para presenteá-lo. O gato Nicolau.
Seguindo a técnica de construção de toyart com materiais de baixo custo, que aprendi com Rogério Camolez, precisava de tinta acrílica para pintar o gato. A técnica em questão já foi aperfeiçoada e utilizada amplamente pelo próprio Rogério, e eu mesmo já havia construído um toy seguindo essa técnica durante um workshop.
Eis que, ao entrar em uma loja ESPECIALIZADA em materiais para artes gráficas (“especializada” assim mesmo, em caixa alta, pra assustar) e buscar pelos potes de tinta acrílica fui abordado por uma vendedora que me questionou “Desculpa perguntar, mas para quê você quer essas tintas?”. Eu, inocentemente, respondi que era pra fazer um toyart e ainda tentei explicar, com um sorriso estampado no rosto “É tipo um boneco, uma escultura pequena”. A vendedora, no alto de todo o seu conhecimento sobre materiais (ou não), simplesmente tirou as tintas que estavam na minha frente, em cima de um balcão, dizendo “Não, essa tinta não vai servir pra isso!”.
Ora, mas o que é “servir” em arte? Que tipo de subserviência da criação ao material é essa imaginada pela vendedora?
Na escola a gente aprende desde pequenininho que o lápis preto, de grafite, é pra escrever. O outro, colorido, é pra pintar. Que só é sério o que está escrito à caneta. Que a tinta a gente pega com o pincel... Mas na escola a gente também aprende que pode colocar o giz de cera na chama da vela pra pintar com gotas fluidas de cor, que a lixa de madeira pode ser papel, que dá pra pintar com os dedos e com as mãos lambuzadas de tinta. Só temos essas duas visões do material na escola porque lá é o lugar de experimentar e saber se você vai querer, pro resto da sua vida, seguir as regras, destruí-las ou reinventá-las... porque, afinal de contas, nem existem materiais específicos pra arte. Existem materiais específicos para artesanato.
Porque o artesanato é diferente da arte. O artesanato deve ser o que você espera dele. A arte deve ser tudo o que você não esperava.
Imaginem se alguma vendedora dissesse para Yves Klein que ele não poderia pintar com o corpo de outras pessoas, que não poderia tacar fogo nas pinturas, que não poderia pintar com abrasões meteorológicas... Claro que eu estava em uma posição bem mais medíocre que Klein, porque queria apenas fazer um toyart. Porém, me impedir de comprar algo para realizá-lo é como tacar uma maçã na boca de um político durante um discurso “blablazento”. Alguns até merecem, mas isso não se faz.
É claro que, esperar que a vendedora da loja se questionasse sobre o fazer artístico ou sobre uma subserviência ou não da matéria-prima é pedir muito. Mas, poxa, se nem a lógica capitalista fez com que ela me vendesse as tintas, mesmo que não servissem pra mim, apenas para lucrar mesmo, creio que eu possa classificá-la como uma péssima vendedora.
E o final da história?
Falei “Ta certo”, virei as costas e nunca mais entrei pela porta daquele lugar. Comprei tudo que eu precisava naquelas grandes lojas onde não há questionadores, você pega tudo o que quer, passa no caixa e “Boa tarde!”.

Thales Estefani

Geraldinho Nosferatus, outro toyart pintado com tinta acrílica ( © 2013 Thales Estefani. Todos os direitos reservados, via Behance.)