segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A imagem e a capa: entrevista com Sérgio Campante

No início da Idade Média, os livros eram vistos como espelhos universais que coletavam e forneciam informações sobre todo tipo de assunto. Santo Agostinho chegou a classificar a Bíblia como o espelho verdadeiro e definitivo,que era capaz de refletir tanto a glória de Deus quanto a condição miserável do homem.

Se o homem deseja ver a si mesmo
Se deseja contemplar a grandeza de sua alma
Deve dirigir o olhar sobre este espelho do mundo

Joseph de Chesnes

Mas, se os livros tinham esse grande poder de reflexo, que propriedade guardavam as capas? Nesse tempo, elas apenas serviam para proteger o miolo do livro ou como forma de ostentação, quando feitas de metais e pedras preciosas.
Com o desenvolvimento tecnológico e de materiais para as artes gráficas e com o constante crescimento do valor da publicidade na realidade de mercado dos livros, as capas passaram a ser mais do que simples instrumentos de proteção de um conteúdo: elas passaram a representar e a vender (em muitos casos) o livro.
Mas, como alcançar um resultado que seja o reflexo do vasto conteúdo de um produto editorial numa só imagem de capa? Como não ser redutivista em algo limitado por uma moldura, mesmo que essa moldura sejam os limites do papel da capa? Como conseguir construir pontes de pensamento que levem o leitor (que no contato primário com o livro é afetado pela arte da capa) ao ponto chave da obra? E mais além: é necessário alcançar esse entendimento de imediato? Ou é mais importante sentir uma aura ao invés de entender um conceito?
Abaixo, na entrevista com o capista Sérgio Campante, podemos ter uma dimensão prática de como se desenvolve o trabalho de concepção da capa de um produto editorial, tendo como base, principalmente, fotografias.

1 - Bom dia, Sérgio. Para começar, gostaria de saber como se dá a concepção de uma capa para um produto editorial. De que pressupostos você parte e que elementos usa para fundamentar o trabalho?
Bom, em primeiro lugar procuro me orientar sobre quem vai publicar o livro e qual será o público alvo (quem a editora pretende atingir com o livro). Isso já me ajuda a definir algumas diretrizes, ajuda a pensar uma linguagem gráfica, um estilo. Isso me diz se a capa será conservadora, elitista, ousada ou com um apelo mais popular. Algumas editoras são mais receptivas a novas ideias, outras preferem uma abordagem tradicional.
Sempre procuro ler um trecho do livro para me ambientar com o texto, com o assunto, e, sobretudo, para evitar alguma gafe, principalmente quando se trata de um romance. É importante não errar a estética, não expor demais os personagens e a trama, mas ao mesmo tempo é preciso instigar o leitor a comprar o livro, fazer o leitor se interessar pelo assunto, criar pontos comuns entre o objeto e o sujeito.
Na maioria das vezes eu começo a pesquisa por imagens, mas não necessariamente alguma foto para capa. Faço uma pesquisa de referência, procuro ver diversos trabalhos gráficos, diferentes abordagens. Ver o que já foi feito. É importante ver fotos, ilustrações, filmes, fontes, sites, até mesmo ouvir alguma música. Tudo que me ajude a me ambientar no trabalho é válido para construir uma área deconforto, onde posso criar depois sobre aquele tema.

2 - Você costuma utilizar fotografias na composição de capas?
Sim, diria que em cerca de 80% das capas. E mesmo nas capas que acabo optando por usar uma ilustração, quase sempre parto de alguma fotografia para fazer a ilustração. Gosto muito de usar texturas, ou detalhes de fotos também.

3 - Como é feita a pesquisa por essas fotografias?
Em bancos de imagem, em revistas, algumas vezes diretamente do site de alguns fotógrafos, em outros casos em sites como Flickr ou Wikipedia. Já aconteceu também de usar fotos do meu arquivo pessoal, ou fotos antigas de família. Quando se busca veracidade nas fotos, nem sempre conseguimos o que pretendemos em bancos de imagem. Já existe uma mudança neste sentido, alguns bancos já oferecem fotos “menos posadas”, fotos com “gente mais real”, e não produzidas para a foto.
Por exemplo, há alguns meses trabalhei num romance para o qual buscava uma foto de família, mas era uma família que passava por um drama, e a maioria das fotos de família em bancos de imagem são da família perfeita, sorridente. Neste caso, eu não preciso exatamente de uma família na foto, mas algo que me indicasse uma família, que transmitisse a ideia de família e de conflito. Uma sala de jantar vazia, pratos quebrados, louça suja. Entra aqui um jogo de associaçãode ideias, onde é fundamental ter feito uma leitura antes que me ambientará no tema do livro.

4 - É mais comum comprar os direitos de utilização de uma fotografia ou produzir uma fotografia original para uma capa?
É mais comum comprar os direitos. Produzir a foto sempre há um risco de o resultado não ser o esperado, e o custo é relativamente elevado. Quando preciso de apenas um objeto, um detalhe ou a foto não exige uma produção muito cuidadosa, me arrisco a produzir a foto. Já fiz algumas capas com resultados bem razoáveis com fotos que eu mesmo tirei e manipulei posteriormente em um programa pata edição de imagens.

5 - Você acha que o valor da fotografia num produto editorial pode ser variável dependendo do contexto produtivo (do tipo de livro, por exemplo) e do fim a que se destina?
Acho que poderia sim ter uma escala de valores no significado da foto na composição, mas o que se vê hoje é uma escala de acordo com referências numéricas. Se é foto para capa inteira é um preço, para meia capa é outro. O valor também varia de acordo com a tiragem e as edições.

6 - Qual a relação que existe entre o fotógrafo e o designer? Quero dizer, que tipo de interferência um pode ter no trabalho do outro?
Bom, acho que o designer quando usa uma foto se apropria de uma visão do fotógrafo. Ele pode até fazer uma releitura, mudando o enquadramento. Mas a foto já estava ali. Eu brinco dizendo que com uma boa foto para capa, o maior trabalho é compor o texto sem estragar a foto. E veja bem, não é fácil. Você precisa conciliar um tipo que harmonize com a imagem, e muitas vezes quando a foto é muito boa, ela é boa exatamente por já ser completa, não precisar de outra informação. Então qualquer coisa que você coloque na foto será excesso. É bem difícil conseguir dosar isso.
Gosto muito de compor fotos com texturas e interferências gráficas, e neste caso não sei se os fotógrafos ficam incomodados. Procuro sempre respeitar o trabalho deles e sempre que entrei em contato com algum fotógrafo fui bem recebido. Mas nunca trabalhei com um interferindo no meu trabalho.

7 - E em relação à ilustração, como ela entra no seu trabalho?
Quando há a possibilidade, gosto de trabalhar também ilustrando. Mas sempre avalio se uma ilustração é pertinente ao livro, e se o meu traço também é adequado. Em alguns casos eu terceirizo a ilustração, fazendo uma espécie de direção de arte. Leio um trecho do livro, imagino o que seria a ilustração, pesquiso referências e converso com o ilustrador. Neste caso é preciso ter em mente que a ilustração não sairá exatamente como eu imaginei e procuro ter uma certa maleabilidade na hora de avaliar o trabalho, preciso avaliar se a ilustração é boa, se está pertinente, se atende aos propósitos do livro. É comum o ilustrador apresentar antes um rascunho do desenho, para avaliarmos se estamos no caminho certo. Quando convido um ilustrador para um trabalho é porque gosto e admiro seu trabalho, então é importante confiar no resultado e não interferir demais.

8 - Como você entende a potencialidade comunicativa de uma imagem (seja fotografia ou ilustração) dentro do projeto gráfico de uma capa (ou de um livro)?
Em alguns casos acho que é imprescindível. Gosto muito de trabalhar com a imagem transmitindo uma ideia que vai além do texto. Você pode trazer emoções, criar mistério, fazer com que o leitor se identifique com o livro. São inúmeros os recursos que uma imagem acrescenta ao projeto. Mas, infelizmente, muitas vezes as editoras buscam imagens que reiteram o que o texto está dizendo. Entendo que isso é necessário em alguns momentos, mas tenho críticas a este comportamento. É como ficar se repetindo, como se o seu público fosse incapaz de ler ou analisar uma imagem.
Por exemplo: se o título de um livro (fictício) for “A caixa do mágico” e a editora insistir em usar uma foto de uma caixa segurada por um mágico. Parece um pouco ridículo dito assim, mas acontece em muitos casos.

9 - Você poderia tentar explicitar o processo pelo qual você chega ao resultado final de uma capa?
Hum, esta é difícil. Como explicar o caos? (risos) O meu método é um pouco confuso, fico remoendo os livros na cabeça durante alguns dias, em momentos diferentes: na hora de lazer, quando estou almoçando ou mesmo na fila do banco. Quando sento para executar um layout já pensei em alguns caminhos a seguir, mas raramente já tenho algo fechado na cabeça. Isso não funciona para mim. Já tentei trabalhar desta forma, e nunca o resultado me agrada.


O trabalho de Sérgio Campante pode ser apreciado no seu blog ou ao vivo em qualquer livraria.
Muito obrigado pela entrevista!


  • Entrevista gentilmente concedida a Thales Estefani, em outubro de 2012. A entrevista fazia parte da complementação de um trabalho da disciplina de Fotografia para Produção Editorial da graduação em Produção Editorial da Escola de Comunicação da UFRJ. Sinceros agradecimentos pelo profissionalismo e presteza de Sérgio Campante.

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